16.6.07

Anotações - Halloween...


I met him, fifteen years ago. I was told there was nothing left. No reason, no conscience, no understanding; even the most rudimentary sense of life or death, good or evil, right or wrong. I met this six-year-old child, with this blank, pale, emotionless face and, the blackest eyes... the devil's eyes. I spent eight years trying to reach him, and then another seven trying to keep him locked up because I realized what was living behind that boy's eyes was purely and simply... evil.

Durante todo o desenrolar de “Halloween” (1978) há uma irreversível fixação pela ausência do rosto de Michael Myers. Esta vontade de despersonalização passa, claro, pelo roteiro, mas só garante toda sua força simbólica a partir do momento em que John Carpenter faz dela a pedra angular de seu projeto estético. As intervenções de Dr. Sam Loomis (Donald Pleasance) são bastante relevantes neste sentido, mas funcionam antes de tudo como eco de toda uma aura construída com esmero – deslocamentos de câmera, enquadramentos parciais, uso do fora de quadro, exploração da profundidade de campo – ao redor de um corpo que parece ser o sintoma de um mal muito mais geral que particular. A própria máscara de Myers é desprovida de qualquer traço, ostentando um vazio sufocante em sua inexpressividade e na única ocasião em que ela é retirada tal sensação é apenas reforçada: antes de continuar com a matança, ele tem que parar e a recolocar prontamente.


A primeira cena do filme revela toda a engenhosidade de Carpenter em levar adiante este processo, além de expandir seus significados: “Halloween” se inicia com um longo plano-sequência realizado em câmera subjetiva que faz com que o espectador compartilhe a visão de uma criança que mata, a facadas, sua irmã. Assim, o rosto do assassino, o próprio Myers, é furtado; mais ainda, toma a forma daquele do espectador. Ao final da seqüência, há um corte e a câmera finalmente exibe a criança que segura uma faca ensangüentada enquanto é abordada pelos pais. O mais impressionante nesta cena é exatamente o olhar desta criança, tão vazio quanto o da máscara que ela utilizará anos mais tarde para continuar o que ali começara. Esse olhar se direciona, enfim, para o próprio espectador que acabou de, junto a ele, cometer um assassinato. A câmera começa então um movimento de recuo que funciona não só como uma despedida daquele rosto, que agora passou a ser indiscriminadamente o de todos; mas também para revelar uma casa tipicamente americana localizada em uma vizinhança idem – ao menos, na forma pura e desinfetada como ambas se encontram incrustadas no imaginário popular – que será justamente o cenário do restante do filme. É assim, com um movimento de câmera, que o mal representado por Myers transcende sua impessoalidade e passa a ser atrelado ao mal-estar de toda uma sociedade que tem como mola propulsora exatamente expurgá-lo, mesmo que apenas superficialmente. A simetria das casas, dos gramados, e mesmo das situações em uma cidade como Haddonfield, Illinois, parecem incompatíveis com qualquer perturbação, limpas e isentas de qualquer pecado. Myers, e Carpenter, vêm para ressignificar todo este itinerário visual. E ambos vão até as últimas conseqüências para fazê-lo.

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