23 de novembro de 2008: dia do acesso de Campinense Clube à série B do Campeonato Brasileiro. Uma glória contextual, obviamente; terceiro colocado entre o terceiro escalão do campeonato nacional não é, a priori, algo a ser celebrado como feito heróico. No entanto, o futebol sempre me pareceu, dentre os esportes que acompanho, aquele em que o percurso quase sempre é mais importante que o destino propriamente dito.
Como torcedor, e só o sou decisivamente há pouco mais de três anos, quando abandonei a infidelidade provinciana que me despertava o futebol do sudeste, trata-se da maior conquista que tive oportunidade de acompanhar. Mais importante: a primeira em que me senti verdadeiramente parte de um clube, de uma agremiação onde se compartilham experiências, sejam elas medonhas ou sublimes, lúdicas ou de puro estupor.
Embora esta sensação de pertencimento esteja umbilicalmente ligada a uma vontade de pertencer, sua própria essência é exterior aos que nela tomam parte. Mais ainda, circunda-os e embala-os rumo a um lugar comum, onde todos, ao mesmo tempo em que se identificam em um fim – torcer –, diferenciam-se grosseiramente em seus meios - tão diversos quanto se é possível imaginar.
Assim, a satisfação em ver o clube conquistar este acesso ainda reverbera ao meu redor de forma espantosa, como se eu estivesse ali, no “Amigão”, indistinto entre tantos; observando a tudo, mas ao mesmo tempo participando de tudo. Como se pudesse lançar uma bola de três dedos fadada aos pés de Marabá e ao gol. Como ateu convicto, é o mais perto da transcendência espiritual em massa que me consigo imaginar alcançando.
Este tipo de relação que, entre tantas outras, partilho com o Campinense Clube é de uma irracionalidade ineludível, assumo, porém igualmente tocante pela sua despreocupação em revelar-se como tal. Não há espaço, aqui, para qualquer dissimulação ou auto-indulgência; tudo possui uma limpidez incomum de tão pura. O futebol, quem diria, como um dos últimos baluartes da honestidade em que consigo pensar; talvez por isto seja uma paixão tão natural.
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Elucubrações à parte. Um fim de ano auspicioso, sem dúvida.
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