3.12.08

Comemorações de fim de ano...

Entre as idas e voltas processuais que marcam o segundo mandato de Cássio Cunha Lima como governador da Paraíba, um fenômeno bastante curioso tornou-se uma constante quando qualquer julgamento é proferido pelas cortes das mais variadas instâncias: as comemorações estapafúrdias que varam as principais avenidas de João Pessoa, impulsionadas pelo ribombar incessante de fogos de artifício e pelos gritos dos governistas ou oposicionistas, estes ligados ao senador José Maranhão.
De dentro dos carros, uma parcela mínima da cidade pavoneia suas filiações partidárias embalada por músicas de campanha – Que campanha?
Qualquer campanha! - e pelas incessantes buzinas, em uma demonstração deprimente de auto-afirmação baseada no sucesso ou insucesso dos dois grandes caciques políticos do estado nos tortuosos caminhos que tomam seus litígios judiciais. Ao menos na capital, trata-se de uma manifestação em grande parte restrita a uma certa elite cujos vínculos com uma das duas facções dominantes muito se assemelha com a cegueira medieval que a religião tantas vezes ainda consegue despertar entre seus seguidores. A tendência circense da política local parece atingir o paroxismo nestes momentos em que o absurdo escancara para quem quiser ver – e é apenas uma questão de querer – a degeneração de nossa cultura política, primitiva e irracional. Afinal, aqui, o voto sempre foi muito mais uma questão sectária que ideológica.
Os atores que protagonizam este triste espetáculo apregoam sua fidelidade com a euforia desesperada daqueles que, de fato, vinculam sua vida profissional aos caprichos sazonais do eleitorado que, felizmente, não está limitado à nossa pouco valorosa classe dominante, marcada pelas paixões mais dissimuladas e egoístas. Resta uma terceira força surgir e quebrar o círculo vicioso que agrilhoa nosso estado a esta letargia em que se encontra. Por trás de todo o estardalhaço que marca as contendas políticas paraibanas, há um assustador e quase absoluto vácuo de idéias e valores. Ao menos aqueles que tenham qualquer relação, mínima que seja, com o interesse público. Seja lá o que isto for. Eu já nem me lembro.

28.11.08

Futebol - Acesso à Série B...


23 de novembro de 2008: dia do acesso de Campinense Clube à série B do Campeonato Brasileiro. Uma glória contextual, obviamente; terceiro colocado entre o terceiro escalão do campeonato nacional não é, a priori, algo a ser celebrado como feito heróico. No entanto, o futebol sempre me pareceu, dentre os esportes que acompanho, aquele em que o percurso quase sempre é mais importante que o destino propriamente dito.

Como torcedor, e só o sou decisivamente há pouco mais de três anos, quando abandonei a infidelidade provinciana que me despertava o futebol do sudeste, trata-se da maior conquista que tive oportunidade de acompanhar. Mais importante: a primeira em que me senti verdadeiramente parte de um clube, de uma agremiação onde se compartilham experiências, sejam elas medonhas ou sublimes, lúdicas ou de puro estupor.

Embora esta sensação de pertencimento esteja umbilicalmente ligada a uma vontade de pertencer, sua própria essência é exterior aos que nela tomam parte. Mais ainda, circunda-os e embala-os rumo a um lugar comum, onde todos, ao mesmo tempo em que se identificam em um fim – torcer –, diferenciam-se grosseiramente em seus meios - tão diversos quanto se é possível imaginar.

Assim, a satisfação em ver o clube conquistar este acesso ainda reverbera ao meu redor de forma espantosa, como se eu estivesse ali, no “Amigão”, indistinto entre tantos; observando a tudo, mas ao mesmo tempo participando de tudo. Como se pudesse lançar uma bola de três dedos fadada aos pés de Marabá e ao gol. Como ateu convicto, é o mais perto da transcendência espiritual em massa que me consigo imaginar alcançando.

Este tipo de relação que, entre tantas outras, partilho com o Campinense Clube é de uma irracionalidade ineludível, assumo, porém igualmente tocante pela sua despreocupação em revelar-se como tal. Não há espaço, aqui, para qualquer dissimulação ou auto-indulgência; tudo possui uma limpidez incomum de tão pura. O futebol, quem diria, como um dos últimos baluartes da honestidade em que consigo pensar; talvez por isto seja uma paixão tão natural.

* * * * * * * *

Elucubrações à parte. Um fim de ano auspicioso, sem dúvida.

15.7.08

Anotações - "Rocky Balboa"...


Da revisão como redescoberta. Que “Rocky Balboa” era um filme sobre redenção, não restava dúvida; a surpresa está em finalmente enxergá-lo como um filme redentor. Tanto da série em si – as seqüências do modesto e encantador filme inaugural são deturpações progressivamente mais risíveis e oportunistas – quanto do próprio Sylvester Stallone, caricatura do action-hero americano, garoto-propaganda da era Reagan, grande astro decadente. Mesmo os patentes vícios estéticos que pontuam o filme – especialmente o uso inconseqüente de filtros – não são capazes de debelar a serenidade com que se acompanha seus personagens transitando em espaços tão assombrados quanto as próprias imagens. No entanto, entre a nostalgia dos diálogos e os prédios em ruínas de uma Filadélfia que não mais existe, não há espaço para lamentações. Se há um inegável acúmulo de cicatrizes - as feridas de guerra certamente podem ser notadas no rosto, na voz e no andar de Stallone – também incontornável é a crença do filme na capacidade de se conviver dignamente com elas. Só a partir desta autoconsciência se pode apostar nos pequenos momentos calorosos ainda possíveis entre ruas e rotinas levemente melancólicas. Stallone constrói estes instantes com um esmero que está menos em uma excelência visual que na confiança – leia-se, tempo - que deposita nos atores e em suas relações uns com os outros e com os espaços que ocupam.

Assim, é com simplicidade e desenvoltura que o filme resolve os possíveis conflitos entre os personagens – um deles se esvai diante de uma piscadela de olho – e se enche de imagens inauditas exatamente por serem profundamente ordinárias. Chega, inclusive, a suplantar a banalização do circo televisivo que se constrói ao redor da luta de Rocky contra o campeão mundial. À artificialidade gélida do espetáculo em si se opõe frontalmente a entrega incondicional de cada um dos que dele participam. Pouco importa o resultado; no final das contas, fez-se o que se tinha que fazer. Exatamente como no filme original, objeto estranho entre os sucessos da segunda metade da década de 1970, quando os americanos descobriam o filão dos blockbusters juvenis. “Rocky Balboa” é profundamente anacrônico, seja em sua moralidade ou em suas texturas. Tanto melhor.

30.6.08

Citação - Wong Kar-Wai/Rousseau..


A piedade é um sentimento natural, que, moderando em cada indivíduo a actividade do amor de si próprio, concorre para a conservação mútua de toda a espécie. É ela que nos leva sem reflexão em socorro daqueles que vemos sofrer; é ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de virtude, com a vantagem de que ninguém é tentado a desobedecer à sua doce voz; é ela que impede todo o selvagem robusto de arrebatar a uma criança fraca ou a um velho enfermo a sua subsistência adquirida com sacrifício, se ele mesmo espera poder encontrar a sua alhures; é ela que, em vez desta máxima sublime de justiça raciocinada, faz a outrem o que queres que te façam, inspira a todos os homens esta outra máxima de bondade natural, bem menos perfeita, porém mais útil, talvez, do que a precedente: faz o teu bem com o menor mal possível a outrem. Em uma palavra, é nesse sentimento natural, mais do que em argumentos subtis, que é preciso buscar a causa da repugnância que todo o homem experimentaria em fazer mal, mesmo independentemente das máximas da educação. Embora possa competir a Sócrates e aos espíritos da sua têmpera adquirir a virtude pela razão, há muito tempo que o género humano não mais existiria se a sua conservação tivesse dependido exclusivamente dos raciocínios dos que o compõem.

Jean-Jacques Rousseau, in "Discurso Sobre a Origem da Desigualdade"

19.6.08

Notas - Shyamalan , Farrell, Allen...

. Se ao falar do novo filme de Shyamalan eu me referi a uma depuração no sentido de se atingir o essencial ao diretor, talvez eu não tenha deixado claro que este não é um processo de concisão formal, muito pelo contrário, o romantismo caro ao diretor dá vazão a uma encenação por vezes hiperbólica que, no decorrer do filme, evolui até atingir o paroxismo na cena em que Mark Wahlberg e Zooey Deschanel caminham e se reencontram em meio a insondável possibilidade de morte. Quando falo em dignidade, me refiro justamente aos riscos que o diretor toma de forma bastante consciente em busca de soluções visuais – e especialmente rítmicas – que abarquem o sentimentalismo exacerbado de seu projeto de cinema. Daí nascem momentos belíssimos e outros de grande inconsistência em toda sua obra, mesmo nos filmes mais acertados, como acredito ser o caso de “Corpo Fechado”, “Sinais” e “A Vila”.

. Querem saber qual é a maior prova de que “O Sonho de Cassandra” é uma obra-prima de contenção? Woody Allen conseguiu transformar Collin Farrell em um ator capaz de tornar seu personagem crível sem qualquer sobressalto. O naturalismo de boutique que marca suas atuações – mesmo em grandes filmes como “Miami Vice” – é prontamente afastado, talvez por ter-se conseguido, finalmente, encontrar um personagem adequado: inseguro, hesitante e completamente incapaz de controlar seus gestos no crescendo neurótico que o filme pontua com perfeição. Não se trata mais da risível dissimulação de uma postura impossível porque eminentemente física, como ocorria em qualquer de suas atuações pregressas, mas justamente o contrário, um esforço em se afirmar justamente por suas fragilidades e incongruências. Este é apenas um dos pequenos milagres que fazem de “O Sonho de Cassandra” uma preciosidade capaz de empalidecer quase toda a produção contemporânea e boa parte dos filmes do próprio Allen. Rigor absoluto de encenação, dramaturgia e ritmo. Trata-se, de certa forma, do oposto lógico de “Fim dos Tempos”; um trágico conto moral incisivo e exato em todos os seus detalhes.

18.6.08

Paying my respects - Charisse...






. Cyd Charisse (1921-2008) .

16.6.08

Anotações - "Fim dos Tempos"...


“Fim dos Tempos” não é diferente da grande maioria dos trabalhos de Shyamalan: o romantismo surge como a única forma de resistência diante de um mundo em processo de desintegração, purgando o desgaste das relações pessoais e as inúmeras inseguranças que marcam seus personagens. Neste sentido, talvez seja o filme mais esquemático do diretor, que parece se despir dos diversos subtextos observados em “Corpo Fechado”, “A Vila”, “A Dama da Água” ou mesmo “Sinais”, filme que guarda as semelhanças mais diretas com este mais recente. Alcança-se, assim, uma enorme pureza no relato, diluindo-se todos os elementos para que reste só o essencial. Infelizmente, este processo – e sua incômoda frontalidade que muitas vezes acena ao ridículo – é por vezes hesitante, especialmente quando, ao final do filme, se tenta atabalhoadamente dotar de alguma substância o “happening” do título. Afinal, como dito pelo protagonista em uma das primeiras cenas, há fatos que se esquivam de qualquer teorização. O filme, que parecia se desenvolver a partir deste princípio, titubeia rumo ao fim, mas ainda assim é de uma dignidade rara no cinema contemporâneo.

Obs.: Impressiona como Shyamalan consegue subverter os meios modernos de comunicação transformando-os em ferramentas essenciais para a construção do suspense e horror. Na mesma medida, a utilização do som no filme é bastante incisiva em sua secura, especialmente na cena do canteiro de obras em Nova Iorque.